O presidente da Renamo, Ossufo Momade, quebrou o silêncio sobre o caso António Muchanga. Falou alto, falou claro e deixou um recado a outros membros do partido.
A crise dentro da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) está longe de arrefecer. Desta vez, foi o próprio Ossufo Momade a tomar a palavra, na Manhiça, para desmentir que tenha interferido na suspensão do ex-deputado António Muchanga e, ao mesmo tempo, deixar no ar um aviso que ninguém dentro do partido pode ignorar: mais sanções estão a caminho.
Momade foi directo. Segundo ele, a decisão de suspender Muchanga não partiu da presidência do partido, mas sim do Conselho Jurisdicional o órgão internamente competente para aplicar medidas disciplinares. "Qual seria o órgão que deveria tomar aquela medida, fora do Conselho Jurisdicional? Se fosse o presidente a tomar essa decisão, diriam que é Ossufo. Mas não é Ossufo são órgãos internos do partido", afirmou, sob aplausos dos militantes presentes.
Uma Suspensão Que Veio Depois de Avisos Ignorados
O que muita gente talvez não saiba é que a suspensão de Muchanga não surgiu do nada. De acordo com Momade, antes de chegar a esta medida, houve advertências. Várias. Mas Muchanga, nas suas próprias palavras, "continuou a fazer as suas brincadeiras". Só então é que o Conselho Jurisdicional avançou com a suspensão por tempo indeterminado.
Esta não é a primeira vez que o órgão age desta forma. Em setembro de 2025, o mesmo Conselho suspendeu Leonardo Munguambe, conhecido como João Machava, antigo porta-voz da Junta Militar também por contestar abertamente a liderança de Momade. Ou seja, em menos de cinco meses, a Renamo já suspendeu dois membros por razões semelhantes. É um padrão que diz muito sobre o estado interno do partido.
Curiosamente, Muchanga, por sua vez, defende que o Conselho Jurisdicional nem sequer tem competência legal para o suspender. "A entidade que tomou a decisão não tem competências para isso", disse o ex-deputado, acrescentando que foi notificado pela imprensa e não de forma oficial. Para ele, trata-se de intimidação, não de disciplina partidária.
Expulsão Ainda Não, Mas Está na Mesa
Momade foi cuidadoso nas palavras, mas o recado ficou claro. "Ele não foi expulso, foi suspenso", reiterou o presidente da Renamo, explicando que a expulsão, caso aconteça, caberia ao Conselho Nacional não ao Conselho Jurisdicional. No entanto, deixou pouca margem para dúvidas sobre o que poderá acontecer se Muchanga não mudar de postura: "Se continuar, será expulso pelo Conselho Nacional."
É uma escalada gradual. Primeiro a advertência, depois a suspensão, e por fim a expulsão. A Renamo parece seguir um roteiro disciplinar que, na prática, coloca Muchanga numa posição cada vez mais precária dentro do partido mesmo que ele insista que está "de pedra e cal" na Renamo.
O Aviso Que Vale Para Todos
Talvez a parte mais importante do discurso de Momade na Manhiça não tenha sido sobre Muchanga especificamente. Foi o aviso que fez a outros membros. "Fora Pedro Muchanga, vamos sancionar mais outros. Terão que ser sancionados porque estão a ocupar a nossa delegação. Aquele é património do partido", disse, num tom que não deixou margem para interpretações alternativas.
Esta declaração confirma o que já se suspeitava: a liderança da Renamo não está a ver a ocupação das sedes pelos ex-guerrilheiros como um problema pontual. Está a tratá-la como um desafio estrutural à autoridade do partido e pretende responder com medidas concretas.
Há meses que grupos de desmobilizados e antigos combatentes ocupam delegações da Renamo em várias províncias do país, exigindo a demissão de Momade. Alguns deles estão a recolher assinaturas a meta era 10 mil até ao final de fevereiro para submeter ao Conselho Nacional um pedido formal de renúncia. A tensão, portanto, não é nova. Mas as sanções podem agudizá-la.
O Contexto de Fundo: Um Partido sob Pressão
É impossível separar este episódio do quadro mais amplo em que a Renamo se encontra. Nas eleições gerais de outubro de 2024, Momade obteve apenas 6% dos votos o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo partido que, durante décadas, foi a principal força da oposição em Moçambique. Essa derrota acelerou as críticas internas e deu mais combustível aos contestatários.
Momade foi reeleito presidente da Renamo em maio de 2024, num processo ele próprio muito contestado. Prometeu não se recandidatar à liderança. Mas a questão que paira sobre o partido não é tanto quem lidera agora é se a Renamo consegue resolver as suas disputas internas sem se partir em dois.
Por agora, o presidente diz que chegou a hora de "pôr um basta". A disciplina partidária, nas suas palavras, tem de prevalecer. Resta saber se os que estão do outro lado da barricada vão aceitar esse argumento ou se vão continuar a empurrar até ao limite.
Fontes: declarações de Ossufo Momade partilhadas pela equipa da Renamo com a Miramar; Carta de Moçambique; O País; Agência Lusa.
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